Santander

Autoconfiança movida a música e dança

No Recanto Colônia Veneza, em Peruíbe (SP) 230 crianças e adolescentes aprendem música, dança e esportes, estudam, brincam, conversam e se preparam para o mundo

Foto: divulgação / Recanto Colônia Veneza
24/10/2019

Trompetes, violinos e flautas numa sala, tutus e sapatilhas de ponta em outra resplandecem no ambiente. Quem seriam essas crianças e adolescentes, vítimas de violência doméstica ou da pobreza, que encontram energia para a música e a dança?

A menina Viviane Vieira da Silva, de 12 anos, aos 5 anos, ficava na companhia de dois irmãos mais velhos porque a mãe precisava trabalhar muito para alimentar quatro filhos. Ela se sentia sozinha, “sem amigos da minha idade, sem ter com quem conversar”.

Iuri da Silva Gonçalves, de 17 anos, cinco irmãos, fez da rua sua escola até os 13. “Só fazia bagunça.”

Com 11 anos hoje, Wanessa Cabral dos Santos Cardozo viu a mãe criar sete filhos. Aos 5 anos, não tinha onde ficar, enquanto a mãe procurava trabalho.

Os três representam a diversidade de histórias de 230 crianças e adolescentes que encontraram o mesmo destino esperançoso no Recanto Colônia Veneza, em Peruíbe (SP). Para elas, os participantes do Amigo de Valor ajudaram a financiar o Espaço Amigo, onde, no contraturno escolar, aprendem música, dança e esportes, estudam, brincam, conversam e se preparam para o mundo.

O espaço é mantido pelo Centro Ecumênico de Publicações e Estudos Frei Tito de Alencar Lima, que desde 2016 participa dos editais do programa, realizado a cada dois anos. O valor arrecadado anualmente possibilita o pagamento dos funcionários e a contratação de professores de música e dança.

Arte, disciplina e aprendizado

Há 34 anos, a instituição atende crianças e adolescentes entre 6 e 16 anos, vindas de famílias com renda de até dois salários mínimos ou que vivem de benefícios sociais. A escolha da música e da dança como atividades tem um atrativo mágico sobre as crianças, como explica a assistente social e técnica responsável pelo projeto Lúcia Rodrigues Machado Cortez. “Trazem alegria, realização, selam o convívio, aproximam a família e os inserem na comunidade.” As duas atividades desenvolvem habilidades que farão toda a diferença no futuro das crianças, como motricidade, percepção visual, raciocínio e disciplina. Elas escolhem o que fazer e descobrem que o aprendizado depende da dedicação. Confiantes, encaram com mais segurança a comunidade e a vida.

No final do ano e em eventos da cidade, os músicos da banda mostram o que aprenderam. As meninas do balé demonstram o grau de disciplina que ganharam com a dança. Eles não têm medo de palco, mesmo quando seus pais e irmãos estão na plateia. São 40 integrantes na banda, 80 alunos de flauta, 15 de violão e 22 de percussão. Muitos dos que saem, voltam como voluntários, colaboradores, músicos. Ninguém quer sair do projeto antes da hora, o que resulta em uma fila de espera de 270 crianças.

Reconstruindo relações

Quando se mora em uma cidade sem praças nem parquinhos, quadra de futebol e parques, as instalações do Espaço Amigo enchem os olhos. Têm jardim, árvores, campo de futebol, espaço de recreio, refeitório. Ali, eles fazem duas refeições por dia. “Nós somos a referência para essa população”, diz Lúcia Cortez, há 10 anos trabalhando na instituição. Parte do projeto prevê trazer a família para conversar e refletir sobre as relações familiares. Em reuniões quinzenais, os assistentes sociais procuram mostrar a importância do papel de proteção da família, especialmente quando há violência doméstica.  

Quando desabrocham pela música ou pela dança, os meninos e meninas se tornam o orgulho da família. A melhora da autoestima da criança contagia os pais. Com o conhecimento que se abre, eles percebem que existem outras possibilidades, começam a pegar gosto pela cultura e a ter outros olhos para o mundo. Tudo isso, segundo a assistente social, contribui para aproximar a família do projeto e aumenta as chances de reconstruir as relações.

Destaque

"Percebemos a transformação das crianças e adolescentes pelo vocabulário enriquecido, pelo cuidado com a higiene, pela mudança de atitudes. Eles participam dos eventos na cidade e se sentem importantes. "

Lúcia Cortez

Assistente social e técnica responsável pelo projeto

Atualmente, Viviane faz parte do grupo de dança da instituição e luta judô. Apesar da pouca idade, sonha em estudar Biologia. “Deixei de me sentir sozinha com o jeito que nos acolhem aqui”.

Há cinco anos no projeto, Vanessa toca trompete na banda, faz balé e karatê. “Aprendi a trabalhar em grupo, fazendo as pesquisas, participando das gincanas, das aulas de pintura”.

Iuri saiu quando fez 16 anos, depois de quatro anos no projeto. Tocava trombone e trompete na banda. Hoje mora em São Paulo, onde se prepara para ingressar na Polícia Civil.

Com o círculo virtuoso proporcionado pelo projeto, as crianças descobrem, pelo poder da educação, da música e da dança, que a vida pode oferecer muito mais, inclusive o direito de sonhar alto. As famílias ganham autoestima e interesse em fortalecer os vínculos. Para a comunidade, significa ver seus membros recuperarem a chance de exercer seu potencial.