Santander

Lugar de criança é na família

Em Moreno (PE), a Cidade Evangélica dos Órfãos (CEO), apoiado pelo Amigo de Valor, abriga e trabalha pela reinserção familiar de crianças e adolescentes abandonados ou negligenciados

Fotos: Arquivo pessoal / Cidade Evangélica dos Órfãos
17/10/2019

Alexandre*, 13 anos, gosta de dormir com a luz acesa. O medo do escuro conta um pouco da sua história de abandono, maus tratos e solidão. Ele tinha menos de cinco anos quando ficou órfão. Vivia com a mãe, que foi assassinada. Passou, então, a morar com a avó materna, que cuidava dele e de outros dois irmãos mais velhos, em situação de extrema pobreza, na região metropolitana do Recife (PE).  Pouco tempo depois, a avó teve um derrame e ficou inválida. A única tia, que assumiu os cuidados da avó, não tinha condições de ficar com Alexandre e o entregou a uma família que, dizia, tinha criado o pai que ele nunca conheceu.

Ainda pequeno, o menino era forçado por pessoas dessa família a sair, diariamente, para pedir esmolas. Muitas vezes, o cansaço era tamanho que acabava dormindo na rua. Na casa onde morava, havia dois locais para passar a noite. Do lado de dentro ou do lado de fora. O seu lugar, quase sempre, era do lado de fora, na companhia do gato, no breu total. Quando cresceu um pouco mais, fugiu de casa e ficou perambulando pela região. Perto de completar onze anos, por intervenção do Conselho Tutelar do município de Moreno, foi encaminhado à Cidade Evangélica dos Órfãos (CEO). Foi acolhido e, pela primeira vez na vida, começou a frequentar a escola.

Um novo lar

Após muitas tentativas de reinseri-lo em sua família de origem, Alexandre foi incluído no sistema de adoção. Em meados de 2019, conheceu Mauro Vasconcelos Pacheco e Wellington da Silva Miranda Jr., que moram em Parnamirim, área metropolitana de Natal, Rio Grande do Norte. Casados há cinco anos, Mauro e Wellington haviam dado entrada em um processo de adoção em 2015. Participavam de reuniões e acompanhavam as redes sociais de várias instituições de adoção, em busca da tão aguardada chance de aumentar a família. Foi assim que encontraram Alexandre. “Ele não se enquadrava no perfil que definimos para a adoção, que era de crianças de 3 a 5 anos, mas tivemos uma empatia imediata”, conta Mauro.

A partir desse encontro, Alexandre ganhou um lar e, hoje, vive confortavelmente com seus pais, recebendo os cuidados que toda criança e adolescente precisa ter. “É um menino tímido, muito inteligente e com uma consciência e entendimento incríveis sobre as coisas da vida”, diz Mauro. “Estamos muito felizes e superadaptados”.

Atendimento integral

Um final feliz que, nem sempre, meninos e meninas com uma história similar à de Alexandre podem ter. “Ainda há preconceito em relação à adoção de crianças maiores”, afirma a coordenadora do CEO, Lilia Karolina Costa Lira de Lima. “As oportunidades de ter uma família são maiores para crianças brancas da primeira infância, de zero a seis anos, e a realidade é que temos crianças maiores. Mas isso começa a mudar, com mais pessoas adotando crianças de mais idade, pardas e negras”.

Essa realidade faz com que meninos e meninas passem muito tempo em lares temporários, que necessitam de recursos para prestar atendimento integral. O apoio do Amigo de Valor chegou para garantir que o CEO continue a realizar esse trabalho. A instituição oferece moradia, alimentação, saúde, educação, suporte psicológico e outros cuidados às crianças acolhidas, encaminhadas pelos órgãos de proteção de defesa das crianças e adolescentes.

Destaque

"O Amigo de Valor mudou a história das 13 crianças e adolescentes que moram conosco atualmente. Sem ele, não teríamos condições de manter nossa estrutura. "

Lilia Karolina Costa Lira de Lima

Coordenadora do CEO

Com os recursos da campanha de 2019, foi possível reformar e equipar a moradia, reforçar e capacitar a equipe de profissionais para atendê-los e comprar materiais para as salas de atendimento social, psicológico e pedagógico. “Nosso esforço é para reinseri-los na própria família ou, quando isso não é possível, em uma família substituta”, diz Lília. Nesses casos, é feito um acompanhamento da criança e da família por seis meses.

Quando, apesar dos esforços, não há adoção e os jovens ficam ali até 15 anos, tem início um treinamento para que tenham autonomia ao completar 18 anos. Essa preparação inclui a realização de cursos técnicos, como o de informática, e apoio para que trabalhem como jovens-aprendizes e tenham um local para morar. Eles também podem continuar frequentando as instalações.

O CEO está instalado em uma área de três hectares, com quadra, escola, parque com playground e centro comunitário onde são oferecidos cursos de confeitaria e aulas de judô e ballet. Além de atender meninos e meninas que já deixaram a casa ou estão acolhidos, as atividades são abertas à comunidade, promovendo uma convivência saudável com o entorno.

* O nome foi alterado para preservar a identidade do adolescente.