A filantropia familiar deixou de ser apenas um ato de generosidade e passou a fazer parte dos grandes planejamentos patrimoniais.
Cada vez mais famílias buscam formas estruturadas, seguras e eficientes de gerar impacto social, perpetuar valores e deixar um legado que ultrapassa gerações.
Mas junto com essa ambição surgem dúvidas importantes: qual a melhor estrutura jurídica? Qual a diferença prática entre fundação e associação? Como funciona um endowment? Quais são os riscos e vantagens fiscais?
Neste guia, explicamos os pontos de atenção que toda família precisa considerar antes de iniciar sua jornada filantrópica.
O que é filantropia familiar?
A filantropia familiar é o conjunto de ações sociais realizadas por uma família — normalmente de alta renda — com o objetivo de gerar impacto positivo e duradouro na sociedade.
Ela funciona como uma forma estruturada de investimento social, em que a família direciona recursos financeiros, tempo, conhecimento e influência para apoiar causas como educação, saúde, cultura, meio ambiente e justiça social.
Principais características da filantropia familiar
A filantropia familiar se caracteriza por:
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Propósito claro e alinhado aos valores da família: a filantropia surge da vontade de retribuir à sociedade e deixar um legado. Normalmente, a família escolhe causas que têm relação com sua história, crenças ou áreas em que acredita poder gerar impacto real.
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Envolvimento direto dos membros: diferente de doações pontuais, a filantropia familiar costuma envolver vários integrantes que participam de decisões, projetos e governança. Esse engajamento ajuda a transmitir valores entre gerações.
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Uso estruturado de recursos: não se trata apenas de doar dinheiro, a família pode colocar à disposição seu tempo, experiência profissional, reputação e rede de contatos. Quanto mais estruturada for a ação, maior tende a ser o impacto social.
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Visão de longo prazo: a filantropia familiar busca continuidade. Por isso, muitas famílias criam estruturas permanentes, como associações, fundações ou fundos patrimoniais (endowments), para garantir que o projeto sobreviva ao longo das gerações.
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Gestão profissional e foco em resultados: as iniciativas são planejadas como verdadeiros investimentos: normalmente são estabelecidos objetivos, métricas, governança e acompanhamento. O foco está na eficiência, ou seja, usar os recursos da melhor forma possível para resolver problemas reais.
Quais são os benefícios para governança e sucessão?
A filantropia familiar também fortalece a governança e apoia a sucessão. Ao criar um projeto social estruturado, a família desenvolve mecanismos que melhoram a organização interna, preparam os herdeiros e preservam valores entre gerações.
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Alinhamento de valores entre gerações: cria um espaço onde pais e filhos discutem propósito, ética e responsabilidade, formando uma visão comum.
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Preparação dos herdeiros para assumir responsabilidades: os jovens participam de decisões reais, aprendem sobre gestão, orçamento e impacto, sem risco direto ao patrimônio empresarial.
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Regras claras de tomada de decisão: a filantropia exige governança: conselhos, papéis definidos e processos formais, que depois podem ser aplicados ao negócio da família.
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Redução de conflitos internos: com objetivos sociais compartilhados, a família cria um terreno neutro que aproxima gerações e reduz disputas.
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Continuidade do legado familiar: a estrutura filantrópica ajuda a perpetuar a identidade e os valores, mantendo-os vivos ao longo do tempo.
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Impacto social com visão de longo prazo: garante que os recursos destinados ao projeto social permaneçam protegidos e gerando retorno contínuo, independente da situação financeira de curto prazo.
Fundação x associação
Se a família busca perenidade, rigor e proteção do patrimônio destinado à causa, uma fundação é o caminho natural.
Agora, se prefere agilidade, flexibilidade e menor burocracia, a associação tende a ser a melhor escolha.
Veja as peculiaridades:
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Fundação |
Associação |
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Patrimônio inicial obrigatório: começa com um patrimônio destinado permanentemente à causa. Esse recurso não pode voltar para a família |
Não exige patrimônio inicial: é formada pela união de pessoas (membros), não por um patrimônio. |
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Estrutura mais rígida: sua missão, regras e forma de atuação são estabelecidas no estatuto e as alterações devem contar com a aprovação do Ministério Público. |
Mais flexível: mudanças no estatuto são mais simples e independem do Ministério Público. |
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Governança formalizada: exige conselho curador, regras claras e maior controle externo. |
Governança mais leve: estrutura menos burocrática, com assembleia e diretoria. |
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Foco na perenidade: utilizadas para legados de longo prazo, especialmente quando há endowment. |
Boa para projetos dinâmicos: permite testar, ajustar e até encerrar atividades com mais facilidade. |
Desse modo, a fundação pode ser recomendada para famílias com grande patrimônio que desejam dedicar recursos exclusivamente ao impacto social a longo prazo. É perfeita para iniciativas com endowment e que requerem governança robusta, sendo o veículo apropriado para legados familiares com forte propósito e visão de longo prazo.
Por outro lado, a associação é a modalidade que pode ser recomendada para famílias que iniciam na filantropia e buscam flexibilidade. Não exige alto patrimônio inicial, sendo perfeita para projetos em evolução e iniciativas com participação ativa de vários membros.
Como a filantropia familiar é implementada?
Basicamente, a filantropia familiar é implementada com principalmente:
1. Doações financeiras regulares ou pontuais para projetos, instituições ou programas sociais.
2. Doação de tempo, por meio de mentorias, participação em conselhos ou acompanhamento direto das iniciativas.
3. Compartilhamento de conhecimento, usando experiência empresarial ou profissional para fortalecer organizações sociais.
4. Construção de estruturas próprias, como fundações ou associações da família.
5. Gestão de endowments, criando um patrimônio permanente cujo rendimento financia o impacto social ao longo do tempo.
6. Apoio a projetos sociais específicos: direcionar recursos para iniciativas alinhadas aos valores da família, permitindo impacto direto e mensurável.
7. Ações de advocacy: atuação direta para defender pautas importantes. Usar influência e conhecimento para promover mudanças em políticas públicas e defender causas estratégicas.
Como integrar o legado social ao planejamento sucessório?
Integrar o legado social ao planejamento sucessório permite que a causa apoiada pela família continue viva e consistente ao longo das gerações.
Isso envolve decisões técnicas, como a forma de doação, e medidas de proteção do patrimônio que financiará o impacto social.
1. Doação em vida x disposições testamentárias
Primeiro, a doação em vida permite a transferência de recursos em vida com total controle sobre a implementação. É ideal quando a família deseja acompanhar a governança, definir regras e orientar os herdeiros, oferecendo mais previsibilidade e alinhamento intergeracional.
De outra maneira, as disposições testamentárias destinam parte dos bens à filantropia via testamento, garantindo a contribuição social após o falecimento. O benefício é a criação de um legado social sem afetar o patrimônio em vida, respeitando a legítima dos herdeiros.
2. Governança na organização do legado social familiar
Dentre as boas práticas existentes, citamos algumas mais comuns, tais como:
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Conselhos, comitês e regras de decisão bem definidos: evitam conflitos, proporcionam continuidade e protegem a missão mesmo com a troca de gerações.
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Planejamento jurídico e fiscal adequado: uma boa estrutura evita problemas regulatórios, garante conformidade tributária e permite que a filantropia não gere consequências indesejadas à família.
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Uso de endowments para perenidade: destinar parte do patrimônio a um fundo patrimonial permite preservar o capital e usar apenas o rendimento para ações sociais, garantindo impacto por décadas.
Pontos de atenção para o legado social
Antes de iniciar um legado social, a família precisa garantir que a iniciativa seja clara, sustentável e protegida ao longo do tempo.
Alguns pontos de atenção ajudam a evitar problemas e a aumentar o impacto do projeto.
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Clareza de propósito e definição da causa: saber exatamente qual problema a família quer enfrentar evita dispersão e orienta todas as decisões futuras.
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Nível de envolvimento da família no projeto: definir quem participa, como participa e quanto tempo dedica contribui para continuidade e evita conflitos.
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Riscos de reputação e compliance: escolher parceiros confiáveis, manter transparência e seguir regras legais protege a imagem da família e do projeto.
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Governança e regras de tomada de decisão: papéis claros, conselhos definidos e processos formais trazem ordem, eficiência e longevidade ao legado.
O papel dos endowments na sustentabilidade do legado
Os endowments são fundos de investimento de longo prazo para organizações sem fins lucrativos. Eles funcionam como um “motor financeiro permanente” que sustenta projetos sociais por décadas, independentemente de mudanças nas gerações ou no cenário econômico.
Para fixar alguns conceitos básicos:
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Endowment é um fundo patrimonial permanente: a família destina um capital que não é gasto. Ele é investido e apenas os rendimentos – via de regra - são usados para financiar as ações sociais;
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Preserva o patrimônio ao longo do tempo: o principal permanece intacto, garantindo que o projeto tenha recursos contínuos mesmo com oscilações de mercado ou crises;
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Gera previsibilidade financeira: com receitas recorrentes vindas dos investimentos, a instituição consegue planejar melhor e expandir seu impacto;
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Fortalece a independência do legado: o projeto não fica dependente de doações anuais ou da vontade de cada geração; o fundo sustenta a operação de forma autônoma;
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Reforça a governança e a transparência: exigem regras claras de gestão, auditorias e políticas de investimento, aumentando a credibilidade do legado.
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