Santander

A conquista do direito de sonhar

O projeto Ciranda da Vida promove a proteção e a reinserção social de crianças e adolescentes de Caruaru (PE)

12/09/2019 
Foto: COMVIVA / Divulgação

O Renato da Silva Nascimento acaba de completar 18 anos. É tímido, fala baixo, mas ao ser perguntado sobre o que mudou em sua vida nos últimos anos, responde em alto e bom som: “ganhei o direito de sonhar”. Cursando o segundo ano do Ensino Médio, ele conseguiu pegar a mão contrária no destino reservado a muitas crianças de Caruaru, no agreste Pernambucano.   Aos 9 anos de idade, Renato já “pegava frete” nos tradicionais mercados a céu aberto da cidade, como a Feira de Caruaru, onde são vendidos desde roupas e artesanatos até produtos de feira livre e artigos importados. Trabalhava de sexta a domingo carregando carroças de mercadorias para os comerciantes. Às vezes, em outros dias também. “Pegar o frete” significa, em geral, o início de uma jornada de risco para os meninos e meninas que vivem em situação similar à de Renato. Com a mãe trabalhando fora o dia inteiro, desde pequenos, ele e seus dois irmãos ficavam sozinhos em casa. Iam para a escola e, no outro período, ficavam na rua com a turma, sem a supervisão de um adulto.

“As crianças começam fazendo frete, depois passam a vender balas e a perambular por aí em grupos. Acabam se envolvendo com drogas e, com o tempo, abandonam a escola e perdem o vínculo com suas famílias”, conta Patrícia Silva de Santana, educadora social do COMVIVA – Centro de Educação Popular Comunidade Viva.   Renato conseguiu se livrar desse destino porque encontrou, na instituição, um ponto de apoio que o ajudou a construir um projeto de vida. Aos onze anos, ele começou a frequentar o COMVIVA, iniciativa focada na educação de crianças e adolescentes em risco ou que já vivem nas ruas. “Se não fosse o COMVIVA, eu teria largado a escola muito tempo atrás”, acredita Renato.  

Sala de aula a céu aberto

Em companhia de outro educador, Patrícia mantém uma rotina diária de visitas a pontos onde crianças e adolescentes em situação de rua costumam se encontrar. É um trabalho de formiguinha. Com um kit educativo formado por jogos e materiais didáticos em mãos, eles se apresentam, explicam o que fazem e convidam a criança a brincar.   Após três ou quatro encontros, quando acontece a formação de vínculo, eles a convidam a frequentar a sede do COMVIVA e pedem autorização para conhecer sua família. A receptividade, em geral, é bastante positiva. “Quando chegam, eles ficam encantados com o espaço e com as atividades”, conta Maria do Socorro da Silva, coordenadora do projeto.   Ali, eles recebem apoio psicoterapêutico, fazem reforço escolar, oficinas de grafite, flauta, violão e percussão e podem cuidar da horta orgânica.  Ao chegar e antes de sair, fazem as refeições do dia. Seus familiares recebem suporte psicossocial. Para os adolescentes a partir dos 14 anos, há cursos profissionalizantes de padeiro e operador de caixa e o projeto mantém convênios com diversas organizações para inseri-los no mercado de trabalho.

Destaque

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Tenho uma vida melhor e um leque de oportunidades. Mas o que eu quero, mesmo, é fazer faculdade de música e trabalhar como professor de percussão.

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RENATO NASCIMENTO

Jovem que frequenta o COMVIVA desde os 11 anos

Uma vida com mais oportunidades

Hoje, 250 meninas e meninos de 6 a 17 anos são atendidos pelo Ciranda da Vida. Desde que o COMVIVA foi constituído, em 1989, mais de 5,8 mil crianças e adolescentes passaram pela instituição. A maioria retomou a vida escolar, recuperou o convívio familiar e encontrou seu lugar na sociedade.   O Renato chegou ao COMVIVA por meio de amigos em situação de rua e começou a frequentar as atividades. Nas oficinas de percussão, descobriu sua vocação: a música. Levava jeito e, com o tempo, tornou-se assistente do professor e começou a participar de apresentações na comunidade, tocando diferentes instrumentos.   Também fez os cursos profissionalizantes e hoje trabalha meio período em um banco, como Jovem Aprendiz. No outro período, toca o próprio negócio: faz bolos e vende para mercadinhos e pessoas do bairro. Assim, ele complementa a renda da mãe, que trabalha como auxiliar de limpeza e ganha um salário mínimo por mês.   “Tenho uma vida melhor e um leque de oportunidades. Mas o que eu quero, mesmo, é fazer faculdade de música e trabalhar como professor de percussão”.