Santander

Oportunidade de sonhar com o futuro

Projeto Fazer Acontecer – Resgatando Enquanto é Possível atua para tirar crianças e adolescentes da violência e abandono nas áreas mais pobres de Maragogi (AL)

17/09/20

Elisângela Ferreira Nascimento, 13 anos, vive na comunidade do Sítio Maruim, na zona rural de Maragogi (AL). Ela perdeu a mãe quando tinha 9 anos e, desde então, tem a reponsabilidade de cuidar da casa, da roupa, das refeições e da irmã caçula, que hoje tem 9 anos. Seu pai está desempregado e, para conseguir algum dinheiro, faz bico como vendedor de mandioca: retira o produto em uma chácara próxima e vende em um carrinho de mão pela vizinhança. Fatura entre R$ 15,00 e R$ 20,00 por dia e divide o dinheiro com o dono da plantação.
O casebre de taipa e cimento que ela compartilha com o pai e a irmã possui quarto, sala e cozinha, não tem mobília, fogão a gás, água encanada nem rede de esgoto. O chuveiro fica na área externa, em um cercadinho improvisado de bambu envolto em palha. “Nunca tomei um banho quente na vida, nem usei toalha”, conta a adolescente. Para se secar, a família usa fraldas de pano que sobraram de quando eram pequenas.
A rotina de Elisângela, até pouco tempo atrás, era sempre a mesma. Depois dos afazeres da casa, ficava zanzando por aí, como diz, até dar o horário de ir para a escola.  Às vezes, faltava ânimo e desistia. As coisas começaram a melhorar quando o projeto “Fazer Acontecer – Resgatando Enquanto é Possível” entrou em sua vida, há cerca de um ano, e ela passou a frequentar as atividades socioeducativas realizadas pelo programa no povoado de São Bento, onde fica o Sítio Maruí.
“Faço curso de fotografia e de música. Aprendi a mexer na câmera e descobri que posso ser fotógrafa ou ter outra profissão. Também gosto de cantar, mas acho que vou mesmo é ser bombeira”. Sonhar, diz ela sem pestanejar, foi a sua primeira conquista após começar a frequentar as atividades. A segunda: ir bem na escola. Ela está na quinta-série e tem ambições de gente grande. “Quero aprender muito para dar uma vida melhor para a minha família”. Vida melhor, para ela, é ter uma casa com piso, banheiro e comida na mesa todos os dias.

Elisângela durante aula ministrada pelo projeto: o que mais gosto é fotografar pessoas.

Segurança alimentar e rendimento escolar

“Quando alcançamos a família com o projeto, ela estava em uma situação socioeconômica muito difícil. As meninas não frequentavam assiduamente a escola, o pai havia perdido seus documentos e não conseguia descobrir como tirar novos porque é analfabeto. E a bolsa-família de R$ 260,00 a que tinham direito estava sendo sacada pela mulher do irmão mais velho de Elisângela, que estava preso”, conta a assistente social Luciana Maria de Lima.
A primeira intervenção feita pela equipe do projeto foi apoiar a resolução dessas questões para garantir a segurança alimentar das meninas. A partir daí, a família passou a ser acompanhada regularmente, por meio de visitas em casa. Em poucos meses, Elisângela e sua irmã retomaram a rotina educacional e passaram a ter melhores notas na escola. Essas são, aliás, condições básicas para participar do programa. “Aproveito tudo o que posso. Antes, a gente não tinha nada para brincar no Maruim”, arremata.
A história da Elisângela resume as histórias de muitas outras crianças e adolescentes que vivem por si só, expostas a todo tipo de violência e abandono nas comunidades mais pobres de Maragogi. O “Fazer Acontecer” foi criado em 2019 pela Secretaria Municipal de Assistência Social do município, a partir da articulação com diferentes áreas da Prefeitura e o Conselho Municipal dos Direitos das Crianças e dos Adolescentes (CMDCA), para fazer frente a essa situação.

Um Amigo que ajuda mudar

Com os recursos recebidos do Amigo de Valor no ano passado, foram contratados professores para ministrar aulas e oficinas, compradas tendas móveis, cadeiras, câmeras, mesa de áudio, computadores para edição de fotos e vídeos, caixas de som, instrumentos musicais e fantoches, entre outros equipamentos. Os funcionários da Secretaria também foram treinados para apoiar as atividades.
Elas são realizadas nos quatro povoados com mais baixo índice de desenvolvimento social e menor renda do município: Deda Paz, Peroba, Comunidade do Samba e Sítio Maruí. Além das tendas, montadas nos locais em que não há qualquer infraestrutura, são utilizados espaços de associações comunitárias e serviços de convivência existentes nessas comunidades.
Com uma equipe dedicada de 12 profissionais, o projeto tem 104 cadastrados e atende por semana, em média, 96 meninos e meninas de 11 a 17 anos, oferecendo aulas de música, dança, teatro, fotografia e educomunicação, um curso pré-profissionalizante em que os mais velhos aprendem noções básicas de jornalismo, a fazer entrevistas, locução e edição de áudio e vídeo. Assista ao vídeo-documentário “Resgatando enquanto é possível”, produzido no final de 2019 pela turma de educomunicação.

Oportunidades e ganhos reais

“Os recursos aportados pelo Amigo de Valor em 2020 vão nos ajudar a manter o projeto em funcionamento e a ampliar o atendimento”, afirma Mirhay Rodrigues Teixeira, coordenador de execução. Segundo ele, os resultados são visíveis para os beneficiados. “Garantindo seus direitos fundamentais, conseguimos reduzir o ciclo de violência social, familiar e econômica e criar a oportunidade de enxergar que um futuro melhor é possível”.
Para Adriana Cristina dos Santos, presidente do CMDCA (Conselho Municipal dos Direitos das Crianças e dos Adolescentes) de Maragogi, a melhoria do comportamento na escola e da aprendizagem são os indicadores que melhor retratam o impacto do projeto. “Acompanhamos de perto cerca de 25 crianças e adolescentes nas quatro comunidades atendidas. Cerca de 80% delas apresentaram ganhos no rendimento escolar no final de 2019”.

Atendimento psicossocial

A articulação para a realização do projeto foi iniciada a partir da identificação, nas regiões atendidas, de casos de trabalho infantil, abuso sexual, agressão física e verbal e altos índices de alcoolismo e uso de drogas nas famílias. Essas questões são trabalhadas em visitas feitas semanalmente pela assistente social e por uma psicóloga. Elas visitam as residências e fazem um levantamento sobre as condições de renda, moradia, saúde e funcionamento das famílias. A partir daí, endereçam as questões mais urgentes, como atendimento médico e encaminhamento para programas sociais.
“É impossível cuidar apenas do contexto socioeconômico. A gente acaba se comprometendo com a redução das vulnerabilidades, formando uma rede de proteção às crianças que não frequentam a escola, sofrem bullying ou estão isoladas do contato com outras crianças”, diz Luciana Maria de Lima. Essa rede de proteção, de acordo com ela, envolve as secretarias municipais de saúde e educação, o Ministério Público e o Conselho Tutelar.

"Ao tirar as crianças e adolescentes do anonimato, observamos que suas comunidades se engajaram na proposta. E que a sociedade começou a reconhecer os talentos que estão ali e só precisam de um empurrão para deslanchar "

Adriana Cristina dos Santos

Presidente do CMDCA (Conselho Municipal dos Direitos das Crianças e dos Adolescentes) de Maragogi