Santander

Uma casa que acolhe, ensina e inclui

Na Apae de Serrana, em São Paulo, crianças com deficiência intelectual socializam, aprendem e ganham autonomia, passos importantes para a inclusão social desse público

Foto: divulgação 15/10/2019

Nem escrever, nem contar. Tem uma escola que ensina coisas mais elementares. A primeira é escovar os dentes. Quando o aluno aprende, um passo gigantesco foi dado. Tão importante quanto isso, só aprender a comer sozinho. No universo das pessoas com deficiência intelectual, os avanços são medidos com outras métricas. Infelizmente, de difícil assimilação pela comunidade e até pelos pais.

Precisa surgir um espaço como a Casa Funcional para que o entendimento aconteça. A casa reproduz uma residência familiar, com cozinha, sala, quarto e banheiro, projetada para ser segura e confortável para quem usa cadeira de rodas ou anda com dificuldade.

Nesse espaço, os alunos recebem o suporte de uma equipe multidisplinar para que consigam transformar “a deficiência em eficiência”, o lema do projeto apresentado pela Apae de Serrana (SP) ao Amigo de Valor. O valor arrecadado por meio do programa contribuiu para a reforma da Casa Funcional e mais quatro salas, o pagamento da equipe técnica e a compra do mobiliário adaptado, eletrodomésticos e de material de consumo.

De acordo com a psicóloga Eneida Gonçalves, a Casa atende pessoas com deficiência intelectual moderada, grave e severa. “Para elas, aprender as atividades da vida diária para ganhar independência significa também avançar sobre o estigma social que cerca o deficiente intelectual”, explica. Um estigma que leva à negação de uma vida compatível com sua capacidade e impede a inclusão social. “Por isso, consideramos tão importante desenvolver as atividades de vida diária”, explica a assistente social Sinara Leandro.

Aprender as atividades da vida diária para ganhar independência significa também avançar sobre o estigma social que cerca o deficiente intelectual.

Eneida Gonçalves

Psicóloga da Casa Funcional

Aprender as atividades da vida diária para ganhar independência significa também avançar sobre o estigma social que cerca o deficiente intelectual.

Eneida Gonçalves

Psicóloga da Casa Funcional

Em busca da autonomia

Nesse aprendizado, um grande esforço é dirigido à educação da família para que aceitem a autonomia dos filhos, da qual serão também grandes beneficiárias. “A maioria dos pais não deixa o aluno fazer nada em casa, fazem por ele. Têm medo da exclusão e, na tentativa de proteger seu filho, eles acabam mantendo-os em casa longe da sociedade”, diz Eneida.

Até então, as famílias de baixa renda mal tinham a quem recorrer, além do precário serviço público. A proposta da Apae previu o atendimento de 26 crianças e adolescentes de 7 anos a 18 anos. Os recursos da Casa Funcional também serão aproveitados pelas pessoas já atendidas pela instituição, um total de 58 beneficiários entre 0 e 60 anos. Trata-se de um avanço imenso para as 84 famílias que frequentam a casa. Os alunos encontram um espaço arejado, luminoso e com acessibilidade, no qual passam quatro horas por dia.

O plano de formação começa por ensinar ao aluno o autocuidado. Tudo está por aprender. Além da escovação dos dentes, recebe orientação prática sobre higienização e o banho. Em seguida, vêm a apresentação das rotinas domésticas – arrumar a cama, cozinhar e fazer compras. “A maioria nunca tinha entrado em um supermercado”. Na sala de aula, aprendem a lidar com números, quantidades, cores. Para entender o ciclo dos alimentos, trabalham em uma horta vertical no pátio; e utilizam o que plantam para preparar o prato que vão comer na Casa Funcional, como um bolo de cenoura.

Para as crianças, o projeto oferece recursos preventivos, como a estimulação cognitiva e alfabetização. Entre as atividades, os alunos fazem duas refeições. Os que se alimentam por sonda levam para casa a sopa batida para assegurar a alimentação correta.

Engajamento familiar

Com tantos benefícios, no entanto, não foi fácil para o pessoal da Apae convencer as famílias a deixar seus filhos participarem do projeto. “A família não acredita na capacidade de aprendizado do filho”, diz Eneida. A solução surgiu de um jeito simples - formar um grupo no whatsapp para acompanhar a evolução dos alunos. “Pedimos um retorno de como ele está se saindo em casa e uma foto de quando faz uma atividade aprendida. Os pais compraram a ideia.” A cada início de módulo, há uma reunião presencial com as famílias. Um dos temas abordados é a necessidade de socialização do filho. “Estimulamos o uso do espaço público e a convivência com outras pessoas.”

Os avanços em autonomia trazem um benefício enorme para os alunos e suas famílias. Esses avanços aparecem quando melhoram a postura ao andar, quando vencem o medo de subir escada ou mantêm o pescoço ereto, quando aprendem a comer sozinhos, deixam de usar fraldas ou vão sozinhos ao banheiro. Primeiro, os pais ficam admirados com a evolução, conta Silmara. “Depois agradecidos. Mudam o modo de olhar seus filhos.” Preparados, os beneficiários ganham em qualidade de vida e a família se fortalece para conquistar a inclusão social.